O ciclo do hype tem um padrão previsível. Uma tecnologia surge, os entusiastas exageram nas promessas, a realidade decepciona as expectativas infladas, o mercado decreta a morte da ideia e, então, silenciosamente, as empresas que continuaram trabalhando começam a apresentar resultados.
Por Raquel Araujo Enquanto parte do mercado ainda debate se o metaverso é hype ou realidade, algumas empresas já estão contando o dinheiro que fizeram lá dentro.
O metaverso passou por exatamente esse ciclo entre 2021 e 2024. O anúncio grandioso da Meta, os bilhões investidos, a decepção com adoção mais lenta do que o previsto, os artigos declarando o fim do metaverso. E enquanto isso acontecia na mídia, marcas como Nike, Gucci e Roblox Corporation continuaram construindo, testando e aprendendo.
Em 2026, os resultados desse período de maturação estão visíveis. E eles mudam a pergunta que as empresas deveriam estar fazendo: não mais “o metaverso vale a pena?”, mas “qual é a estratégia certa para o nosso negócio nesse espaço?”
Por que o metaverso virou pauta estratégica nas empresas
A resposta mais honesta é demográfica. As gerações Z e Alpha, que cresceram com jogos online como forma primária de socialização, representam hoje uma fatia crescente do poder de compra global. Para esse público, a fronteira entre o digital e o físico nunca foi muito nítida.
Dados do setor mostram que plataformas como Roblox e Fortnite reúnem centenas de milhões de usuários ativos mensalmente, com concentração expressiva na faixa de 13 a 28 anos. Mais importante do que o volume é o comportamento: esse público passa horas nesses ambientes por vontade própria, com atenção genuína, sem a resistência que têm à publicidade convencional.
Para marcas que querem construir relevância com consumidores que serão dominantes nos próximos dez a vinte anos, estar presente nos espaços onde essa audiência já vive não é uma aposta no futuro. É uma estratégia de presente.
Os três modelos de negócio que estão funcionando
Produtos digitais e receita direta
O modelo mais direto de monetização no metaverso é a venda de produtos digitais: itens, roupas, acessórios e experiências que existem exclusivamente no ambiente virtual e têm valor real para quem compra.
A Nike construiu o Nikeland dentro do Roblox e passou a vender itens digitais que vestem os avatares dos jogadores com a estética da marca. Em paralelo, através da aquisição do estúdio RTFKT, lançou coleções de tênis digitais como NFTs com preços que chegaram a valores equivalentes aos dos produtos físicos premium. O resultado foi uma nova linha de receita com margem bruta muito superior à do produto físico, já que o custo de produção de um item digital é praticamente zero depois que o design está pronto.
A Gucci seguiu caminho similar. Uma bolsa digital lançada dentro do Roblox por cerca de 4 dólares foi revendida no mercado secundário por mais de 4.000 dólares. Não porque alguém foi enganado, mas porque o valor percebido de exclusividade e pertencimento a uma comunidade é genuíno para esse público.
Experiências de marca e engajamento de longo prazo
O segundo modelo não gera receita direta imediata, mas constrói algo igualmente valioso: relacionamento profundo com consumidores que escolheram estar ali.
A diferença fundamental entre um anúncio digital convencional e uma experiência de marca no metaverso é o consentimento. O usuário que entra no espaço virtual de uma marca foi lá por vontade própria, permanece pelo tempo que quiser e interage porque quer. Esse tipo de atenção voluntária gera métricas de engajamento que nenhuma campanha de display consegue replicar.
A Samsung criou um espaço no Decentraland onde usuários exploravam produtos de forma interativa e participavam de eventos ao vivo. A Hyundai construiu um mundo virtual no Roblox chamado Hyundai Mobility Adventure, onde usuários aprendiam sobre mobilidade elétrica através de missões gamificadas. Em ambos os casos, o objetivo não era vender um produto imediatamente, mas criar uma associação positiva e memorável entre a marca e um público jovem que ainda não tem poder de compra total, mas que vai ter.
Parcerias com criadores nativos
O terceiro modelo é o mais sofisticado em termos de execução e o mais eficaz em termos de autenticidade. Em vez de entrar no metaverso com uma campanha produzida de fora para dentro, as marcas identificam criadores que já têm audiência e credibilidade nesses ambientes e estabelecem parcerias colaborativas.
Esses criadores nativos conhecem os códigos culturais, a linguagem e as expectativas da comunidade de uma forma que agências externas raramente capturam. A Adidas usou essa estratégia ao fazer parcerias com comunidades Web3 para o lançamento da coleção Into the Metaverse. A Coca-Cola trabalhou com artistas digitais nativos para criar experiências que foram recebidas pela comunidade como conteúdo genuíno, não publicidade.
O desafio da mensuração: como medir ROI no metaverso
Uma das principais objeções de líderes empresariais ao investimento no metaverso é a dificuldade de mensuração. E é uma objeção legítima.
As métricas tradicionais de marketing digital, como custo por clique, taxa de conversão imediata e retorno sobre investimento em vendas diretas, não capturam a natureza da experiência imersiva. Uma empresa pode ter 10 milhões de visitantes em seu espaço virtual e não conseguir rastrear quantos deles compraram um produto físico nos três meses seguintes por influência dessa experiência.
As empresas mais avançadas nesse espaço estão desenvolvendo frameworks de mensuração próprios, com métricas como tempo médio de permanência no ambiente, taxa de retorno de usuários, volume de conteúdo gerado espontaneamente pelos usuários sobre a experiência e Net Promoter Score específico para interações virtuais.
A conversão direta ainda é difícil de rastrear com precisão. Mas as empresas que têm dados longitudinais de suas experiências imersivas começam a documentar correlações entre engajamento virtual e comportamento de compra que justificam o investimento mesmo sem rastreamento perfeito.
O que separa as estratégias que funcionam das que falham
Nem toda presença no metaverso gera resultado. O cemitério de espaços virtuais abandonados é real, e as razões para o fracasso são consistentes.
Marcas que chegam ao metaverso com mentalidade de campanha, criando uma experiência temporária sem comprometimento de longo prazo, raramente constroem comunidade suficiente para justificar o investimento. As plataformas imersivas recompensam consistência e presença contínua, não ativações pontuais.
Marcas que ignoram a cultura nativa de cada plataforma e replicam no metaverso o mesmo tipo de publicidade que fazem no mundo físico são recebidas com indiferença ou rejeição ativa pela comunidade. O usuário do Roblox ou do Fortnite tem radar muito bem calibrado para distinguir presença genuína de intrusão publicitária disfarçada.
E marcas que não entendem a diferença entre construir para uma plataforma específica e construir para o “metaverso genérico” acabam criando experiências que não se encaixam em lugar nenhum. Cada plataforma tem sua própria gramática, suas próprias expectativas e seu próprio público. Uma estratégia eficaz começa pela escolha cuidadosa de onde estar.
Interoperabilidade: o próximo capítulo estratégico
O maior obstáculo estrutural que as marcas enfrentam hoje no metaverso é a fragmentação do ecossistema. Um ativo digital criado para o Roblox não funciona no Fortnite. Uma experiência construída no Decentraland não é acessível no The Sandbox. Cada plataforma é um ecossistema fechado.
Para as marcas, isso significa multiplicar investimentos para estar presente em múltiplos ambientes, sem conseguir construir uma identidade digital coesa que atravesse plataformas.
A solução que a indústria busca é a interoperabilidade, e iniciativas como o Open Metaverse Alliance avançam nessa direção. Quando ativos digitais puderem transitar entre plataformas, o valor estratégico de construir presença no metaverso vai aumentar significativamente. As marcas que já construíram assets com padrões abertos estarão muito melhor posicionadas quando essa realidade chegar.
Perguntas Frequentes
Qualquer empresa pode investir no metaverso ou é só para grandes marcas?
Não é exclusividade de grandes corporações. Plataformas como o Roblox têm ferramentas de criação acessíveis, e agências especializadas em metaverso já atendem empresas de médio porte com orçamentos razoáveis. O tamanho ideal da aposta depende do objetivo e do público da empresa, não do seu faturamento.
Qual plataforma de metaverso é melhor para começar?
Depende do público-alvo. Para marcas que querem alcançar jovens de 13 a 25 anos, o Roblox é a maior audiência disponível. Para entretenimento e público gamer mais amplo, o Fortnite tem mais alcance. Para estratégias voltadas ao público corporativo e Web3, o Decentraland e o The Sandbox são mais adequados.
Quanto tempo leva para ver resultados de uma estratégia no metaverso?
Estratégias de produto digital com venda direta podem gerar receita imediata. Estratégias de construção de marca e engajamento de comunidade geralmente levam de seis meses a um ano para mostrar métricas de engajamento consistentes e de um a dois anos para impactar métricas de negócio mais tradicionais.
É necessário usar NFTs em uma estratégia de metaverso?
Não. NFTs são uma ferramenta dentro do ecossistema, não um requisito. Plataformas como Roblox e Fortnite operam com economias digitais proprietárias sem blockchain. A decisão de usar ou não NFTs depende do objetivo estratégico, do público e da plataforma escolhida.
Como a marca evita parecer oportunista ao entrar no metaverso?
A resposta está na consistência e na relevância cultural. Marcas que chegam ao metaverso com compromisso de longo prazo, que entendem a comunidade da plataforma e que criam experiências com valor genuíno para o usuário não parecem oportunistas. Aquelas que aparecem com ativações de duas semanas e somem nunca convencem ninguém.
O momento certo para entrar já passou. O segundo melhor momento é agora.
Existe um provérbio chinês que diz que o melhor momento para plantar uma árvore foi há vinte anos. O segundo melhor momento é hoje. No metaverso corporativo, a lógica é similar.
As marcas que entraram em 2021 e 2022, suportaram o período de desencantamento e continuaram construindo estão hoje com vantagem de dados, comunidade e aprendizado que é difícil de replicar rapidamente. Essa vantagem vai crescer, não diminuir, conforme a adoção de ambientes imersivos aumenta.
Para empresas que ainda não começaram, o conselho mais prático não é montar uma grande estratégia e um orçamento expressivo. É escolher uma plataforma, entender sua comunidade, criar uma presença mínima genuína e aprender fazendo. O metaverso recompensa quem aprende rápido muito mais do que quem chega tarde com muito dinheiro.
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